domingo, 19 de setembro de 2010

JUSTIFICAÇÃO DO AUTOR

Cada geração carrega seus deuses, seus mitos, suas esperanças e suas fobias, quebrando os ídolos, os altares, as ilusões e os preconceitos dos pais e avós. Ainda agora, Gilberto Freyre recorda a gente de 1889, que jurava por Augusto Comte e tinha a filosofia como "hobby". Mas como isso já parece distante aos que, na mocidade, ainda ouviram os últimos ecos dos homens da alvorada da República!

Quem freqüentou as Faculdades brasileiras no intervalo entre as duas grandes guerras há de lembrar-se dos nomes sonoros e das causas simpáticas que povoaram o espírito da estudantada daquele tempo. Hoje, a evocação desse rumor d'antanho ressoará como vozes indistintas d'além túmulo.

Por influência indireta, provavelmente de Marx, - defunto que recusa a cova - os assuntos econômicos conhecem prestígio inusitado, que transborda dos círculos dos especialistas ou iniciados e alaga-se por toda a sociedade. Os dicionaristas e estudiosos da língua já podem registrar inúmeros estrangeirismos que vieram designar idéias inexprimíveis no português clássico e alheio a essas cogitações. Da palavra "finanças", que Bluteau e Morais não registraram, a "investimento", ("promocional", "devisa", "agregado", "input", "output", etc..

Mas, dentro do mundo econômico, com versatilidade impressionante, os temas florescem e amarelecem. Vivemos a quadra do desenvolvimento depois da 2ª guerra. A pecha de um país subdesenvolvido" dói intensamente à hiperestesia dos povos jovens, que ainda não se afirmaram de maneira concreta no concerto da civilização e do poder.

Esquecemo-nos de que todas as potências de hoje ou de ontem foram também, atrasadas em relação às nações amadurecidas de outros séculos. Retinem como novidade, ainda com o cheiro de tinta fresca, idéias que, afinal, foram as dos mercantilistas, senão dos precursores deles.

Nessa paisagem contemporânea, o Estado, que Petty, há três séculos, já descrevia como o cobrador, o caixa geral, o segurador, o usurário, o monopolista e o mendigo em nome de todos, assumiu o papel de intruso-mór, feitor de todas as atividades e delegado da Providência Divina na existência terrena. Fiquem os juízos de valor sobre essas intromissões aos políticos, moralistas e ideólogos. As Universidades cabe, sobretudo, a tarefa de investigar e informar a todos se os meios são adequados aos fins.

Daí a importância assumida nos últimos 20 anos pela Política Financeira, que arma o Estado com um dos mais potentes instrumentos de intervenção na economia, senão em todo o tecido social. Aplicação prática do que se convencionou chamar de Ciência das Finanças, há de fixar nesta os alicerces.

A Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade da Bahia encarregou-me de resumir em cinco aulas - cinco apenas - a propedêutica financeira indispensável aos que se interessam pelos problemas de desenvolvimento econômico sem prévia iniciação na Ciência das Finanças e na Política Fiscal. Dessa tentativa, no curso de desenvolvimento, resultou a súmula das aulas proferidas naquela Faculdade, em março último. Publicam-se na intenção dos que pretendem conhecer as primeiras linhas do assunto sem tempo para o curso normal de Finanças.

A. B.

Cabula, BA, abril de 1959.

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